O Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso (CRM-MT) reuniu especialistas, gestores públicos, autoridades e estudantes para discutir políticas públicas, assistência especializada e estratégias para fortalecer as linhas de cuidado destinadas aos pacientes com hanseníase. O encontro foi realizado na última sexta-feira (29.05), no auditório da autarquia.
O Estado segue na liderança nacional no número de notificações da doença. Em 2024, foram registrados 4.723 novos casos da doença no estado. Os dados parciais de 2025 apontam 3.770 novos registros, com taxa de detecção de 96,82 casos a cada 100 mil habitantes, cenário classificado como hiperendemia. Segundo o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, as regiões Norte e Centro-Oeste concentram as maiores taxas de detecção do país.
Presidente do CRM-MT, Adriano Pinho destacou a relevância do encontro e os desdobramentos esperados a partir dele. “Presencialmente, tivemos aproximadamente 190 pessoas conosco. Essas pessoas que vieram são replicadoras dessas informações para todo Mato Grosso. A partir do encontro, iremos construir linhas de cuidado para que os pacientes em tratamento de hanseníase sejam melhor assistidos”.
Ao longo do evento, especialistas discutiram os desafios do diagnóstico precoce, da reabilitação física e da construção de linhas de cuidado capazes de integrar diferentes áreas da medicina e da rede de assistência. A programação incluiu dois painéis técnicos com cinco apresentações, cobrindo desde a experiência de municípios como Ribeirão Preto (SP) e Lucas do Rio Verde até o atendimento de casos complexos no Hospital Universitário Júlio Müller (HUJM).
O período da manhã foi encerrado com um debate estruturado entre entidades institucionais, mediado pelo presidente do CRM-MT, com perguntas direcionadas a representantes da Secretaria Estadual de Saúde, do Ministério Público, do Tribunal de Contas, da Assembleia Legislativa e de instituições de ensino.
Olhar multidisciplinar
Uma das discussões centrais do evento girou em torno da natureza da hanseníase e da necessidade de ampliar o olhar clínico sobre a doença. Elifaz Cabral, ortopedista com mais de 30 anos de experiência no tratamento de pacientes com hanseníase e atuação no Ministério da Saúde, ressaltou que a doença vai muito além de manifestações dermatológicas.
“Hanseníase não é uma doença dermatológica. Ela é uma doença primariamente neural, afeta o nervo periférico. Não que a dermatologia deva sair, muito pelo contrário. A proposta é agregar profissionais para tratar a doença de forma interdisciplinar e multiprofissional”, pontuou.
Do mesmo modo, Felipe Casseb, ortopedista com atuação direta no cuidado a pacientes com hanseníase, reforçou que o foco do tratamento deve ser sempre a qualidade de vida e a autonomia do paciente.
“A hanseníase é uma doença que nem sempre apresenta manchas, mas pode trazer alterações psicológicas e um peso muito grande para o paciente. O nosso objetivo é melhorar a qualidade de vida, a independência e proporcionar melhores condições para que essa pessoa possa contribuir com o estado, com a sua família e com a sociedade”, salientou.
Mais diálogo
A perspectiva institucional também esteve presente no debate. Lianni Borges, dermatologista e integrante da Câmara Técnica de Hanseníase do CRM-MT, apontou o diálogo entre entidades como condição essencial para avançar na qualidade do atendimento.
“O nosso grande desafio hoje é fazer com que todas as entidades institucionais conversem entre si em prol de um bem maior, que é o paciente com hanseníase. Os nossos pacientes precisam que, na elaboração das linhas de cuidado, tenham o toque da referência do CRM para que toda essa linha seja implementada de acordo com os direitos e visando à qualidade dos serviços prestados”, sustentou.
Dados preocupantes
O boletim do Ministério da Saúde de 2025 reforça a urgência das discussões promovidas pelo evento. Em 2024, cresceu o número de casos novos em pessoas idosas e a proporção de diagnósticos com incapacidade física já instalada, indicativo de diagnóstico tardio. A taxa de cura no estado está em 69,5%, classificada como parâmetro precário, e 14,6% dos casos chegam ao diagnóstico já com incapacidade física permanente.
O debate também contou com a participação do deputado estadual e médico Dr. João, que destacou investimentos já encaminhados pela Assembleia Legislativa para o enfrentamento da doença. “Nós colocamos dois milhões de reais na LOA [Lei Orçamentária Anual] justamente para capacitação de agentes comunitários de saúde e de enfermeiros. Nada isolado vai funcionar. Temos que ter um conjunto de medidas, com todas as instituições.”
O promotor de Justiça Milton Mattos reforçou o compromisso do Ministério Público com o tema e sinalizou expectativa de resultados concretos a partir da união de esforços. “Nos últimos tempos, esse tema passou a ter um olhar especial do governo, da Assembleia e dos próprios órgãos de controle. Eu tenho certeza de que essa união de esforços e investimentos vai trazer, em um prazo não muito longo, uma melhora substancial tanto no diagnóstico como também no tratamento dessa doença”, finalizou.